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A Comunicação como um Ato Tecnologicamente Mediado

As relações entre os homens, o trabalho e a própria inteligência dependem da metamorfose incessante de dispositivos informacionais de todos os tipos. Esses dispositivos estiveram presentes desde os primórdios da civilização humana.

Cada dispositivo de comunicação, seja a fala, a pintura na caverna, os manuscritos, o livro, o hipertexto geram um certo tipo de relação, de conhecimento da realidade.

Sendo a técnica considerada como o instrumento que possibilita o relacionamento, é possível compreendê-la como um dos elementos fundamentais na transformação do mundo humano.

Mesmo que algumas formas de comunicação não sejam, pelo menos aparentemente, "tecnologicamente" mediadas, como por exemplo um livro, há sempre, segundo o sentido proposto, uma "técnica", um certo tipo de "tecnologia" associada à transmissão da informação. Essa técnica é ativamente responsável pelo estabelecimento da forma de relacionamento entre os homens, na organização social, cultural e política e; é também, ao mesmo tempo, ativamente influenciada por esses mesmos fatores.

Assim, toda comunicação é mediada por uma certa tecnologia que influencia intimamente a compreensão e o relacionamento com a realidade.

Diversos agenciamentos de mídias, tecnologias intelectuais, linguagens e métodos de trabalho disponíveis em uma dada época, condicionam, fundamentalmente, a maneira de pensar e funcionar em grupo.

Novas tecnologias intelectuais levam em conta particularidades sensoriais e intelectuais da espécie humana, hábitos adquiridos com antigas tecnologias, práticas e agenciamentos semióticos diversos, sendo o principal deles a própria língua, integrando todos estes elementos, na construção do sentido dentro do que seria uma "ecologia" ou um "ecossistema" cognitivo.

Mas o que vem a ser essa construção do sentido? O que é a significação? Para Pierre Lévy (1996) e outros teóricos como Vannevar Bush, a operação elementar que determina a significação é a associação. Dar sentido a uma mensagem é conectá-la a outras mensagens, construindo uma ampla cadeia de relacionamentos, um hipertexto mental, transitório e único.

O sentido emerge e se constrói no contexto. É sempre local, datado, transitório. Este contexto pode ser compreendido como a rede semântica que é ativada na construção do sentido, em um dado momento.

Assim, na construção do significado, o que conta é a rede de relações pela qual a mensagem será capturada, a rede semiótica que o interpretante usa para decifrá-la.

Quando um novo fato surge, ele necessita ser representado a fim de ser gravado na memória. Cada vez que se busca uma lembrança, uma informação, a ativação da memória deve propagar-se dos fatos atuais até aos que se deseja alcançar. A estratégia de codificação parece ter uma importância fundamental na capacidade de lembrança. Quanto mais complexas e numerosas forem as associações, melhores as performances mnemônicas. Elaborar uma imagem é o mesmo que construir uma via de representação em uma rede associativa. Uma outra via poderosa é a emoção: quanto mais houver um envolvimento pessoal, mais fácil a memorização.

Se observarmos o modelos propostos por ambos teóricos, chegaremos à conclusão que "qualquer semelhança com a organização de um computador não é mera coincidência". Já na década de 50 Vannevar Bush, que era Diretor de pesquisas Científicas e Desenvolvimento durante a administração Roosevelt nos Estados Unidos, visualizou a existência de uma máquina capaz de reproduzir e ampliar a memória humana. Batizou-a de Memex. Nesta máquina, o indivíduo poderia armazenar os seus livros, sua comunicação pessoal e a forma de consulta seria rápida e flexível como um suplemento da memória humana.

Os links que conhecemos hoje foram descritos por Bush como o sistema de indexação associativa do Memex, cuja única diferença para os processos da memória humana seria a sua durabilidade: descrita como a sua capacidade de percorrer e re-percorrer infinitamente os caminhos associativos. Em seus textos, Bush também introduziu o conceito de textualidade múltipla, que seria o conjunto de textos formados por blocos de palavras, "livros" completos, e, também, pelos próprios caminhos de leitura. Também foi com ele que iniciou-se a discussão sobre os aspectos da nova virtualidade do texto.

As idéias de Bush influenciaram uma geração de teórico-práticos norte-americanos que foram diretamente responsáveis pela invenção do computador pessoal e da Internet. Entre eles: Theodore (Ted) Nelson, Douglas Engelbart e Andries van Dam.

Poucos anos depois, dá-se o rápido desenvolvimento da micro-informática pessoal e, mais tarde, das redes de comunicação.

 

Texto extraído da dissertação final de mestrado da Professora Isabela Lara da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília

http://www.unb.br/fac/ncint/site/parte21.htm

 

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